Antes de tentar responder a pergunta “Porque Adoecemos”, resolvi fazer uma brincadeira. Fiz a meus filhos, a mesma pergunta, todos responderam e ainda chamaram amigos para palpitar, jovens entre 18 e 25 anos de áreas diversas e todos participaram. O surpreendente não foram as respostas, as respostas pareciam atender a algo próprio de suas historias, a suas concepções individuais de saúde e ou doença. A simples resposta do que é uma doença e do porque adoecemos já trazia de uma forma rudimentar e talvez precária, uma biografia, uma historia que fazia o conceito de doença e saúde estar muito mais relacionado com o que cada um vivencia como tal, do que um conceito pragmático que poderia estar escrito em algum bom livro. Logo, tenho um problema. De forma pragmática, saúde é o conjunto resultante de um bem estar físico mental e social, logo, estaria doente quem não preenchesse qualquer um destes quesitos. A doença surgiria, por fatores ambientais, sociais, psíquicos que rompessem uma percepção de homeostase. Um acidente, uma picada de um animal peçonhento, um estado gripal provocado por um vírus, adoecemos, porque viver é inóspito. Adoecemos porque em algum momento houve uma falha que rompeu a possibilidade de mantermos um percurso equilibrado de nosso corpo até algum lugar ou algum tempo. Ao ser picado por uma cobra, adoecemos porque aquele veneno rompe a rotina fisiológica de um corpo, desorganiza o normal, e ameaça o todo. A doença aconteceu, a princípio, porque tudo não esta como antes. Algo mudou. Quando diagnosticamos em um adolescente, uma leucemia, algo irrefutável acontece. A partir daquele momento, aquela pessoa iniciará uma serie de processos diagnósticos e terapêuticos. Certamente alguém tentará explicar que uma alteração no cromossomo Z, associada a uma situação Y, por determinação de um fator W, desencadearam esta doença. Ainda que isto não seja incorreto, certamente é incompleto. Se para um hematologista uma leucemia é uma doença, para o paciente, certamente ela não é a mesma doença da qual o hematologista esta tratando. A experiência vivenciada por esta pessoa a partir do diagnóstico parece criar uma íntima relação entre eles, inicia-se uma comunicação que remonta toda uma historia vivida por esta pessoa, fantasias serão criadas, o medo surgirá e este diálogo parece não ter fim, mas parece ter um propósito. De forma simplificada estou usando o exemplo de uma leucemia porque poderíamos imaginar que estamos analisando um paciente que em um momento zero estava saudável e em um momento “X” não esta mais. Este adolescente, de alguma forma reage a esta situação que está acontecendo em seu organismo, seus familiares e pessoas próximas reagirão a este diagnóstico, cada um com sua história, com seus medos, criando contornos únicos a este novo cenário onde se escreve uma história. A história de um adolescente com leucemia, o que curiosamente, ouso ter uma punção de não considerar contextualmente como uma doença. Se na tentativa de responder o que é uma doença e porque adoecemos, optei por fazer este corte, iniciando de uma pessoa previamente “hígida”, ouso aqui imaginar o mesmo processo partindo do presente para o passado. Que vida vive este adolescente? Como está sua organização familiar? Acordar todos os dias e ir para o cursinho, ver amigos, não ser amado pela moça mais bonita da escola, e certamente não ser o melhor jogador de basquete. Quão “saudável” ele está? Como suas células e suas reações bioquímicas estão lendo cada emoção vivida, cada cena vista. Como está sendo escrita esta historia? O corpo, este que agora conceitualmente está com leucemia, viveu e vive cada um desses momentos. Parece ter sido “printado” por inúmeras informações vivenciadas dia após dia, estabelecendo um código de comunicação que me permito chamar de doença. Entendo então que doença é uma forma de expressão, talvez um viés para uma nova organização, psíquica, social, familiar, pessoal, para um novo momento. O corpo, palco para este movimento, demonstra um novo formato, demonstra mudanças aos olhos dos outros compondo uma percepção visual, tátil, comprovável, tornando possível esta comunicação entre uma pessoa que está em transformação com outros integrantes desta intrigante representação de nós em nossos dias. Será que poderíamos então dizer? Adoeço, logo existo e existo e continuo podendo existir.
Luiz Aurelio de Oliveira, Médico pediatra, intensivista e cardiologista infantil.

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